O Afundamento do U-199

Alguém já disse que o acaso não existe. O famoso dramaturgo, escritor e cronista Nelson Rodrigues dizia que o que aconteceu no dia referenciado (relativo ao seu clube de coração, o Fluminense), já estava escrito há mais de mil anos.

O ocorrido com o então Aspirante Alberto Martins Torres vem corroborar o acima afirmado. Ele foi um dos primeiros pilotos operacionais de CATALINA, pois havia sido escalado para, junto com o então major Kahl e o capitão Annes, ir à Base Naval americana de Aratú, próximo a Salvador, para receber um treinamento de adaptação e de emprego operacional do avião, treinamento esse dado às pressas e sem muita profundidade. Após o treinamento, três aviões PBY-5 (hidro) foram cedidos à FAB pelo esquadrão americano lá baseado.

Após inúmeras missões de Patrulha, em varredura ou em cobertura aérea de comboio, ele jamais viu um único sinal de submarino. Na 6ª feira 30 de julho de 1943, foi publicada a escala sem incluir seu nome, pois já havia voado bastante durante a semana.

Aí ocorreu o imprevisto. O comandante do grupo, major Kahl, ao rever a escala de voo, resolveu incluí-lo numa tripulação já completa escalada para efetuar uma missão.

Após a decolagem e na função de Tripulante Extra, acomodou-se no beliche para descansar. Meia hora após o 1° piloto Miranda Correa pediu-lhe para ocupar a posição de 1P, enquanto completava a plotagem da rota a ser seguida após Cabo Frio. Dez minutos após de ele ter ocupado o assento de 1P, veio uma mensagem cifrada da Base indicando a presença de um submarino num ponto pouco distante da posição do CATALINA. Imediatamente aproou para esse ponto, acelerando os motores para o regime de cruzeiro forçado.

Mandou que as metralhadoras fossem checadas e armou três das quatro bombas de profundidade que equipavam o avião. Por sorte, como ainda era manhã, o CATALINA vinha em direção ao submarino com o sol pela cauda, o que deve ter dificultado ou impedido que os tripulantes do submarino avistassem o avião.

As bombas, cujas espoletas hidrostáticas já haviam sido previamente reguladas para explodir a 21 pés de profundidade (cerca de 7 metros), foram graduadas, pelo intervalômetro, para atingirem a água com um espaçamento de 20 metros entre cada uma, com o objetivo de tentar que o submarino estivesse entre duas das bombas, quando essas explodissem.

A experiência indicava que essa profundidade de explosão e a distância entre as bombas eram as mais eficazes para ataque a submarino, o que só deveria ser executado até o máximo de 40 segundos após seu mergulho. Caso o submarino permanecesse na superfície, as explosões ocorreriam pouco abaixo do casco e dentro de seu raio letal.

Poucos minutos após o submarino foi avistado navegando na superfície em grande velocidade. Parece que até então a guarnição do submarino não havia avistado o CATALINA.

Na corrida para o lançaamento de bombas foi visto um clarão alaranjado partindo do canhão dianteiro. O CATALINA continuou a corrida fazendo algumas manobras evasivas até atingir a altitude de lançamento das bombas, quando o voo foi estabilizado para o ataque.

Todas as metralhadoras começaram a atirar quando o avião atingiu 200 metros de distância. As trés bombas foram lançadas tendo detonado uma junto à popa, outra a meia-nau e a terceira junto à proa. A proa do submarino foi lançada para o alto e o submarino estancou naquele mesmo local junto aos círculos de espuma oriundos das explosões.

Após o lançamento das três bombas o CATALINA colou n’água e fez uma curva acentuada para voltar e lançar a quarta bomba, o que foi feito perto da popa do submarino, enquanto o submarino afundava e os tripulantes se atiravam ao mar. Foram lançados alguns botes junto aos náufragos que se debatiam no local onde o submarino acabara de afundar.

Um PBM MARTIN MARINER americano que voava não longe do local do afundamento, ao interceptar a mensagem do CATALINA dirigiu-se para o local e presenciou, além de fotografar, o final do afundamento. Tratava-se do submarino U-199, responsável por vários ataques e afundamento de navios aliados no Atlântico Sul. Pouco depois outro avião chegou ao local, um A-28 HUDSON pilotado pelo Aspirante Sergio Schnoor.

Quatro outros aviões se dirigiram para a área do afundamento. Pouco mais de duas horas após chegava ao local o destróier americano Barnegat, que recolheu os sobreviventes do submarino e os levou para o Rio de Janeiro, de onde seguiram via aérea para Recife,onde ficaram aprisionados num campo de concentração americano conhecido como “Camp Ingrams”.

O afundamento do U-199 foi o capítulo final de uma série de ações anteriores empreendidas por três aviões, dois brasileiros e um americano.

Numa dessas ações um PBM americano, que regressava de sua varredura noturna, detectou um submarino pelo radar. Pouco depois o avistou na superfície e efetuou dois ataques, empregando três bombas em cada um deles. O submarino teve seu “leme de profundidade”, que comandava a imersão e emersão, danificado fazendo com que o submarino não pudesse mergulhar.

O PBM teve um de seus motores atingidos pela anti-aérea do submarino resultando em grande vazamento de óleo. Dado o alarme pelo PBM, foi enviado à área um A-28 HUDSON do 1° Grupo de Patrulha pilotado pelo Aspirante Schnoor. O HUDSON lançou suas duas únicas bombas de profundidade, mas sem que elas detonassem suficientemente perto do submarino e causasse danos consideráveis.

Além do ataque com as bombas, o HUDSON metralhou o convés do submarino matando ou ferindo seus mais experientes artilheiros. Esgotada a munição, o HUDSON regressou ao Calabouço e o Aspirante Schnoor pegou outro HUDSON armado e municiado e voltou ao local. Mas chegou tarde, pois o U-199 já havia feito seu último e derradeiro mergulho.

Se Nelson Rodrigues fosse comentar esse episódio, provavelmente diria que tudo já estava escrito há mais de mil anos!

Autor Cel. Av. José de Carvalho

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